A Escola de Todos Nós – As Crónicas das 17h
Inclusão é mais do que palavras bonitas: é construir uma nova realidade.
Sabem aquelas palavras que se tornam tão populares que começam a perder o peso? “Inclusão” está a chegar lá. Parece até uma daquelas dietas da moda que prometem milagres mas depois, na prática, a coisa dá trabalho e nem todos se atrevem. Falar de inclusão é fácil. Vê-la acontecer, aí sim, é uma aventura digna de um romance com alguns dramas e, felizmente, momentos de superação.
Lembro-me de quando o Pedro entrou na turma do meu filho. Ele tinha autismo e, confesso, inicialmente os miúdos não sabiam muito bem o que fazer. As perguntas foram muitas: “Por que é que ele não me responde?”, “Por que é que o Pedro tem um professor só para ele?”. Até que a professora decidiu dedicar uma aula a falar sobre o Pedro, não como “o menino diferente”, mas como “o nosso colega que tem as suas manias, como qualquer um de nós”.
E foi aí que a magia começou. Os miúdos perceberam que o Pedro adorava dinossauros. Resultado? Durante semanas, a turma inteira começou a trazer livros, desenhos e até brinquedos de dinossauros para partilhar com ele. Já viram uma criança a iluminar-se? Foi isso que aconteceu. O Pedro deixou de ser o “menino estranho” e passou a ser o especialista em dinossauros da turma.
A lição que os miúdos ensinaram aos adultos
Às vezes, subestimamos os mais novos. Achamos que as crianças podem ser cruéis com quem é diferente, mas o segredo está no contexto que lhes damos. Quando ensinamos que todos temos algo a oferecer, mesmo que seja à nossa maneira, os miúdos aprendem a aceitar e a apoiar. Querem prova? Lembro-me de ouvir o João, o típico miúdo “traquinas” da turma, dizer a outro colega: “Deixa o Pedro ganhar no jogo. Ele fica tão feliz!”. Não era pena, era empatia.
E não é isso que falta no mundo de hoje? Empatia. Parar de ver as pessoas com deficiência como “os outros” e começar a vê-las como parte do “nós”. Não se trata apenas de abrir a porta, é de construir a casa juntos.
Por que é tão difícil fazer isto?
Bom, porque exige esforço. Exige olharmos para as escolas e percebermos que elas não foram feitas para todos. Nem fisicamente (quantas escolas ainda não têm acessos para cadeiras de rodas?), nem mentalmente (quantos professores se sentem preparados para ensinar um aluno com necessidades específicas?). E não é só isso: exige olhar para nós mesmos e percebermos que o medo do diferente é, muitas vezes, o que nos trava.
Mas sabem o que mais? A verdadeira inclusão não é uma questão de caridade. É uma questão de justiça. Não é sobre dar algo extra a alguém. É sobre reconhecer que todos têm o direito de estar, aprender e crescer juntos. O Pedro ensinou isso aos miúdos da turma. E, se formos espertos, ele pode ensinar-nos isso a todos.
Um futuro menos pesado
Sonho com um dia em que não precisemos de ter estas conversas. Um dia em que “inclusão” seja tão normal quanto “aprender matemática”. Onde as crianças nem sequer precisem de perguntar por que é que o Pedro tem um professor a ajudá-lo. Porque, nesse futuro, a resposta será óbvia: porque ele merece aprender, como todos os outros.
Até lá, temos trabalho a fazer. Seja como pais, educadores ou simplesmente como seres humanos. Mas, se os miúdos daquela turma conseguiram, nós também conseguimos. E se tiverem dúvidas, é só lembrarem-se de uma coisa: todos somos um bocadinho como o Pedro. Uns de nós adoram dinossauros, outros fazem birras quando o Wi-Fi falha. Mas no final do dia, todos queremos a mesma coisa: pertencer.
Margarida Silva
A foto que acompanha este artigo é da autoria de Natalie Bond, retirada do site Pexels.

