CRÓNICAS

Entrevistas com Barreiras Invisíveis – As Crónicas das 17h

Porque às 17h, mais uma porta se fecha… ou se abre.

No relógio, 17h. No email, mais uma resposta automática:

“Obrigado pela candidatura, mas encontrámos outro perfil mais adequado.”

O candidato? Uma pessoa com deficiência. Cheia de talento, qualificação e vontade de trabalhar. Mas sem sequer a oportunidade de mostrar o que sabe fazer.

O Fantasma da “Adequação”

“Perfil mais adequado” – essa expressão ambígua que esconde mil barreiras invisíveis. Porque, na maioria das vezes, não é sobre competências. É sobre cadeiras de rodas, aparelhos auditivos, bengalas ou diagnósticos que assustam empregadores despreparados.

A entrevista nem chega a acontecer. O currículo é descartado sem consideração real. E a oportunidade? Evaporou-se antes mesmo de existir.

A Entrevista que Nunca Acontece

Quando uma pessoa com deficiência consegue chegar à entrevista, começa o verdadeiro teste – e não estamos a falar de capacidades profissionais.

– “Mas consegue mesmo fazer este trabalho?”
– “Aqui temos muito movimento, acha que consegue acompanhar?”
– “E se precisar de faltar por causa da sua condição?”

Perguntas que nunca seriam feitas a um candidato sem deficiência, mas que são lançadas sem pudor para quem apenas quer uma oportunidade.

E se, por milagre, a entrevista corre bem, vem o obstáculo final: “A empresa não tem condições para o receber.”

A “Falta de Condições” ou a Falta de Vontade?

Empresas dizem que não têm rampas, elevadores ou casas de banho acessíveis. Dizem que os softwares não são adaptáveis ou que não há orçamento para ajustes razoáveis.

Mas o que realmente falta? Vontade. Porque a adaptação custa menos do que se pensa. Um software ajustável, uma secretária diferente, um intérprete de Língua Gestual em reuniões – tudo isto são soluções simples que fazem uma diferença gigante.

Quando Alguém Olha Além da Deficiência

Mas depois há aquelas empresas que percebem que uma cadeira de rodas não impede ninguém de ser um excelente gestor. Que uma pessoa surda pode ser uma comunicadora brilhante. Que uma deficiência cognitiva não significa falta de inteligência.

Essas empresas veem além da bengala, além do diagnóstico, além do preconceito. E contratam talento, não limitações.

E é aí que a inclusão sai do papel e entra na vida real.

A Pergunta Que Fica

Se uma empresa não está preparada para receber um trabalhador com deficiência, estará realmente preparada para o futuro?

O relógio marca 17h. Lá fora, alguém acabou de perder uma oportunidade. Mas noutro lugar, uma porta abriu-se.

Afinal, a verdadeira entrevista não é para a pessoa com deficiência. É para as empresas que dizem ser inclusivas.

E então, será que passaram no teste?

Rui Martins


A foto que acompanha este artigo é da autoria de Marcus Aurelius, retirada do site Pexels.

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