A Arte de Incluir Mundos
Este é um espaço onde a vivência em arte-terapia se revela como linguagem de acolhimento e transformação. Aqui, cada traço, cor ou forma é um convite para o encontro e para a expressão criativa com liberdade. Nesta coluna, celebramos o potencial da criação através da arte como caminho para a inclusão — um lugar onde todos os mundos cabem e novos mundos são construídos ou descobertos.
Só vale desenho feio! Arte-Terapia e as crianças
Ser criança é expressar com naturalidade aquilo que se sente. A criança tem potencial para expressar tudo, mas vai aprendendo com os adultos a conter, a controlar e a adequar as suas emoções. A distinguir o que é certo do que é errado. O que é adequado do que é desadequado. E ainda bem que assim é, para que possa crescer, integrar-se nos diferentes grupos sociais e perceber que, para ser respeitado, é preciso respeitar os outros.
A expressão da criança surge com muita segurança através dos seus gestos: risca, pinta, amassa, preenche, esvazia, corta, mancha, suja, envolve-se com os materiais. Descobre formas, texturas, sente o material no corpo e nas mãos. A criança ri, brinca, mas também sente nojo, asco, raiva. E cria, no seu mundo, a partir da sua visão da vida, o que é importante para si.
Há crianças de vários tipos, as que querem desenhar tudo muito bem-feito, às vezes com um “dom” natural. Tem jeito para as artes, costuma-se dizer. Há aquelas que só querem divertir-se e aproveitar as cores, as sensações pastosas e pegajosas, a mistura que acaba por não dar cor nenhuma! O prazer. E há aquelas que, com muito esforço, mesmo a riscar, se expressam através de imagens e formas.
Mas todas elas precisam de um espaço de liberdade. Criar é fazer acontecer, cada um do seu jeito, com as suas imagens internas ou até com a ausência delas. Sim, porque há crianças que sentem vazio, medo e dor. Há crianças que querem rasgar, talvez partir, simplesmente gastar o material. Há crianças zangadas. Será que não podem expressar isso também? O desenho não pode ser rasgado, escuro e estranho? Não é possível desenhar coisas feias?
O desenho feio passa a ser bonito quando é acolhido com afeto, tal como os outros (aqueles bonitos com arco-íris…), sem comparação nem julgamento. Mesmo as crianças querem fazer tudo bem-feito e esperam ser elogiadas, mas a competição sobre o que é melhor ou pior só alimenta a insegurança e a falta de confiança na sua autoexpressão. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O significado interior desenvolve-se através da relação estética que se estabelece.
E o arte-terapeuta é aquela figura que lá está a compor esse triângulo entre a criança e a criação. Apoia a sua criatividade, facilita e incentiva a expressão. Propõe liberdade, mas estabelece limites de segurança e afeto, sem deixar que o fluxo criativo se interrompa. Assim, possibilita que a criança sinta mais confiança em si própria e nas suas capacidades de construção, tornando-se mais resiliente e mais motivada para contactar com o seu mundo interior. Porque até o feio pode ser bonito na arte-terapia com crianças.
Daniela Martins é arte-terapeuta e psicoterapeuta. Trabalha com pessoas de todas idades, desde crianças aos idosos, proporcionando momentos criativos e estimulando o encontro com o melhor delas próprias. Investe na arte e na criatividade como formas de afeto e saúde mental.

