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Adaptar dá Trabalho

Vamos ser honestos: em Portugal, ser uma pessoa com deficiência é praticamente um desporto radical. E há sempre o risco de te tratarem como se fosses invisível  ou pior, um projeto de caridade ambulante. Um estudo nacional recente veio confirmar o que já sabíamos : a discriminação é um fenómeno transversal, democrático até. Acontece na escola, no emprego, no acesso à cultura, no desporto, na política e provavelmente até na fila do supermercado. Começamos na escola, esse lugar mágico onde se aprende que dois mais dois são quatro e que, aparentemente, gozar com o colega com deficiência ainda é brincadeira aceitável. Segundo os dados, 68% das situações reportadas são de puro gozo, 56% envolvem pressão psicológica e 52% passam por exclusão pura e dura. Porque nada diz inclusão como deixar um aluno de fora da visita de estudo por logística complicada. Afinal, para quê adaptar quando se pode simplesmente deixar ficar? No mundo da cultura e da política, a coisa também não melhora. É muito deprimente que até dentro de partidos políticos haja pessoas com deficiência a sentirem que não têm condições para se fazer ouvir. Mas podem sempre ser usados nas fotografias de campanha para mostrar que o partido é inclusivo. É também altura para acabar com a ideia de que as pessoas com deficiência são inspiradoras só por existirem. Não são mascotes motivacionais. São pessoas, com direito a existir, participar e ser ouvidas sem precisarem de superar nada para merecer respeito. Vamos também parar com o medo das ditaduras das minorias. Porque a única ditadura que parece persistir é a da normalidade: uma imposição invisível mas implacável de que todos devíamos encaixar num molde que foi feito sem consulta pública. O coordenador do estudo foi claro: as pessoas com deficiência são, historicamente, a minoria mais discriminada de todas. E, ironicamente, continuam a ser tratadas como um problema a resolver, em vez de cidadãos com direitos. A questão não é só de acessos é de atitude. A verdadeira deficiência não está nas pessoas, mas numa sociedade que ainda escolhe excluir em vez de adaptar, ouvir e incluir.


FG

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