Quem cuida também precisa de cuidados – As Crónicas das 17h
Há uma coisa que ninguém nos diz quando começamos a cuidar de alguém: que aos poucos, e quase sem dar por isso, deixamos de cuidar de nós. Ser cuidador, informal, familiar, amigo próximo, ou vizinho de coração grande é das coisas mais humanas que existem. Mas também é, em Portugal, das mais invisíveis.
Não há horários, não há turnos, não há folgas. Há dias bons, dias péssimos e dias em que “funcionar” já é uma vitória. Acordar, levantar quem não se levanta sozinho, gerir fraldas, refeições, dores, birras, medicação, consultas, medos e burocracias. Tudo isto, enquanto se tenta manter um emprego ou uma sanidade mental, ou ambos, em modo malabarista.
Há quem chame a isto vocação. Outros dizem “é por amor”. E sim, é amor. Mas também é exaustão. E frustração. E solidão.
Segundo dados da Associação Nacional de Cuidadores Informais, mais de 80% dos cuidadores em Portugal são mulheres. Muitas vezes mães, filhas, esposas que vão ficando para trás nas suas próprias vidas. Já ouviram “és tão forte” vezes demais, quando na verdade só queriam ouvir: “Como é que estás mesmo?”
E a resposta verdadeira seria: “Cansada. Desorientada. A tentar dar conta.”
Mas em vez de apoio efetivo, o que recebem? Um estatuto com pouco efeito prático. Uma mão cheia de papéis. Zero descanso garantido. A sensação de que estão sozinhas num país onde cuidar ainda é visto como um “assunto de família”, como se fosse natural abdicar da vida em nome de outra.
Atenção: ser cuidador não devia ser penitência. Devia ser profissão, com direitos, formação e descanso. Devia ser prioridade política. Devia ser digno.
E não é.
O projeto With.Care nasce para apoiar quem cuida. Um espaço que oferece não só formação e recursos, mas também rede, descanso e dignidade.
Porque quem cuida também precisa de ser cuidado. Precisa de tempo, de voz, de um lugar onde possa dizer “hoje não consigo” e não ser julgada por isso. O With.Care vem lembrar-nos disso. Vem mostrar que a empatia também pode ser estruturada. Que cuidar do cuidador é, no fundo, cuidar de todos nós.
Se és cuidador ou conheces alguém que o seja, lembra-te: não estás sozinho.
Maria do Carmo
A foto que acompanha este artigo é da autoria de Laurissa Booyse, retirada do site Pexels.

