A Celebrar 50 anos do 25 de Abril
Durante décadas, antes do 25 de Abril, a deficiência em Portugal foi mais do que ignorada: foi silenciada, trancada e, muitas vezes, punida. Não estamos a exagerar. Se hoje ainda lutamos contra preconceitos, imagina viver num tempo em que ser diferente era praticamente um crime.
A Mitra, oficialmente Albergue da Mitra, era o que hoje chamaríamos, com todas as aspas possíveis, de instituição de acolhimento. Mas vamos ao que interessa: ficava no Palácio da Mitra, em Marvila, e era gerida pela Santa Casa da Misericórdia. Até aqui tudo parece respeitável. Mas na prática, aquilo era mais uma prisão do que um lar. Tinha guardas. Tinha cantina. E tinha proibição de sair. Não era bem um hotel com pensão completa, era mais um sítio onde se enfia quem não se quer ver. Quem eram estas pessoas? Gente sem-abrigo, considerados vadios, doentes mentais… e, claro, pessoas com deficiência. Sim, porque no Estado Novo, deficiência era sinónimo de invisibilidade social. E quando não se podia esconder com silêncio, escondia-se com grades. E porquê tanto zelo com o não mostrar? Simples: Salazar não queria vagabundos na rua. E se achas que isso é só uma expressão feia, imagina rondas policiais noturnas com o objetivo explícito de apanhar quem dormia ao relento para o despachar para a Mitra. Não estamos a falar de assistência social, estamos a falar de repressão. Em vários momentos, pessoas com deficiência foram tratadas como se fossem opositores políticos do regime. Como quem diz, se não se encaixam, não servem. E se não servem… internam-se. Silenciam-se. Esquecem-se. A lógica institucional reinava. O modelo do Estado Novo era claro: esconder, afastar, institucionalizar. Pelo menos até aos anos 50, essa era a norma. A deficiência era um problema privado, para resolver entre quatro paredes. E se fosse possível, bem longe dos olhos da sociedade.
No Albergue da Mitra, por exemplo, entre os muitos recolhidos, estava um número considerável de pessoas com doenças mentais. E o que se fazia com elas? Nada. Ou melhor, vigiavam-se pouco e tratava-se menos. Não havia acompanhamento psiquiátrico, nem cuidados especializados. Hoje pode parecer impensável. Mas a verdade é que os documentos da época dizem tanto pelo que mostram como pelo que não mostram.
Porque muito foi censurado, muito foi silenciado. E esse silêncio ainda ressoa hoje, nos medos, nas resistências, nas atitudes de quem ainda acha que a inclusão é um favor. O nascimento de uma criança diferente ainda é, em muitos contextos, envolto em sofrimento, exclusão e revolta. Mas temos vindo a perceber que há uma diferença significativa entre o Portugal do antes e o depois do 25 de Abril. E não é só o cravo ao peito. É a liberdade de existir, de ocupar espaço, de ser visto como pessoa e não como fardo. Este olhar para o passado serve não para apontar dedos , mas para entender os bloqueios que ainda hoje persistem. Porque a exclusão tem raízes profundas. E se queremos uma sociedade mais inclusiva, temos de começar por contar toda a história, até aquela que nos custa ouvir. A deficiência antes da liberdade era escondida. Hoje, exige-se que seja visível, respeitada e incluída.
O mitra não é apenas um nome ou uma alcunha. É um sussurro da nossa história que merece ser ouvido e compreendido. Deve servir como um aviso e uma chamada de atenção para todos nós. Em vez de relegar os que estão em dificuldade a uma nova mitra emocional ou social, somos desafiados a construir um futuro onde a compaixão e a empatia prevaleçam. E, assim, talvez possamos verdadeiramente deixar para trás o estigma e acolher a humanidade em todos os seus matizes. Porque ninguém devia voltar à Mitra.
FG

