A Arte de Incluir Mundos
Este é um espaço onde a vivência em arte-terapia se revela como linguagem de acolhimento e transformação. Aqui, cada traço, cor ou forma é um convite para o encontro e para a expressão criativa com liberdade. Nesta coluna, celebramos o potencial da criação através da arte como caminho para a inclusão — um lugar onde todos os mundos cabem e novos mundos são construídos ou descobertos.
Finalmente uma desculpa para brincar com lama!
Na arte-terapia o barro é um convite descarado para brincar com a terra sem que ninguém ralhe por sujar a roupa. O barro ganha uma nova vida, pois não se trata de modelar jarros ou esculpir obras-primas para expor no museu da aldeia.
Quem chega pela primeira vez costuma olhar para o pedaço de barro como quem encara um enigma: “E agora, o que é que eu faço com isto?” A resposta é simples: meter mãos à massa — literalmente. O barro aceita todos os gestos: um aperto mal dado, um cilindro torto, uma bolinha nervosa, socar, bater, alisar. E o mais curioso é que, ao fim de uns minutos, quem antes hesitava já está de olhos semicerrados, deliciado com o toque húmido e suave. O barro não julga, não manda voltar atrás, nem tem manual de instruções.
E há algo de quase mágico no processo, à medida que se molda o barro, parecendo que a forma ganha vida. Os vários sentimentos ficam impressos no que pode ser uma imagem tridimensional ou numa forma desenhada sobre o papel. O stresse, esse intruso insistente em todas as idades, acaba por ficar ali colado nos dedos, misturado na massa, dando lugar a um sorriso e até a uma gargalhada. Se algo corre mal, recomeça-se, tal como na vida.
O sentido está em brincar livremente, sem a preocupação com o objeto final. Não é para ser técnico como a cerâmica. A beleza está no processo de descoberta sensorial, nas sensações e na imaginação, no prazer de tocar e na relação que se desenvolve com a matéria. E se juntarmos outros elementos naturais ao barro? Folhas, pinhas, galhos, flores. Ou ainda cores de tintas, o brilho das purpurinas, figuras, adereços.
Rico em simbolismo, o barro, além de favorecer um processo estético e criativo, promove formas expressivas intensas. Numa linguagem silenciosa, o barro responde a cada toque, reage a cada gesto, parece ser forte, mas é sensível. E, na modelagem em barro, encontramos os quatro elementos naturais: a terra, base do material; a água, que o torna massa; o ar, que a peça absorve e que a faz secar; e o fogo, do calor das mãos, do mundo interno, do potencial transformador. O barro é matéria viva, de espírito próprio. É terra, é natureza.
E se para alguém o barro não for divertido de tocar? Pois algumas pessoas podem ter dificuldade em sujar as mãos. Seja por maior sensibilidade tátil, por necessidade de controlo sobre o material ou por alguma dificuldade em entregar-se. Tudo bem, não é para insistir. Cada um com o seu tempo e as suas vontades. Há outras opções de modelagem na arte-terapia. Descobre o teu material preferido para expressar as tuas emoções!
Daniela Martins é arte-terapeuta e psicoterapeuta. Trabalha com pessoas de todas idades, desde de crianças aos idosos, proporcionando momentos criativos e estimulando o encontro com o melhor delas próprias. Investe na arte e na criatividade como formas de afeto e saúde mental.

