A Arte de Incluir Mundos
Este é um espaço onde a vivência em arte-terapia se revela como linguagem de acolhimento e transformação. Aqui, cada traço, cor ou forma é um convite para o encontro e para a expressão criativa com liberdade. Nesta coluna, celebramos o potencial da criação através da arte como caminho para a inclusão — um lugar onde todos os mundos cabem e novos mundos são construídos ou descobertos.
Jingle Bell! Arte-terapia e as datas comemorativas
Os nossos hábitos expressivos estão muito ligados ao que aprendemos na escola. Por exemplo, como se desenha, o que se desenha ou o que é considerado certo ou errado na arte. O calendário escolar, que normalmente acompanha o calendário de datas comemorativas, não nos deixa esquecer os momentos culturais importantes para todos. Ou para quase todos, afinal, com a diversidade cultural com que hoje convivemos, nem todas as datas e festas são especiais para todas as pessoas. Inclusivamente, aprendemos a conviver e até a interagir com celebrações muito distantes da cultura portuguesa em geral, como o Ramadão, o Ano Novo Chinês, festividades da comunidade hindu ou até a Páscoa e o Natal ortodoxos, entre outras.
Em arte-terapia, a expressão não pretende ser um prolongamento das datas comemorativas, por mais especiais que elas sejam, mas sim um espaço em que é possível representar mais do que coisas e culturas; pretende-se representar aquilo que vem de dentro, aquilo que toca a alma, ser uma expressão livre, sem direcionamentos condicionados pelos calendários. As festas e comemorações fazem parte da cultura e, à partida, todos podem participar nelas, porque as festas estão “do lado de fora”, enquanto o mundo emocional está “na parte de dentro”, totalmente privado.
A liberdade criativa, que é a base da arte-terapia, abre espaço para o traço mais espontâneo. Por isso, conduzir a criatividade da pessoa para a decoração de Natal, para o coelho da Páscoa, para cenas religiosas ou até para temas do Halloween é direcionar a imaginação para imagens e símbolos de todos, em vez de permitir que cada um expresse os símbolos que correspondam aos seus sentimentos, às suas emoções mais marcantes, e que deixe sair rabiscos e formas totalmente livres.
Há ainda outra questão, quando desenhamos aquele Pai Natal fofinho, os ovinhos coloridos ou a bruxinha engraçada, agradamos a todos à nossa volta. “Olha que desenho tão bonito!” Mas na arte-terapia, não se pretende fazer o “desenho bonito”, pretende-se fazer o desenho livre! É preciso haver lugar para o desenho feio, torto, sem jeito, e ter espaço para o desenho possível.
É por isso que a arte-terapia é inclusiva e para todos, não é para agradar os outros. A arte-terapia é uma porta aberta à liberdade criativa, permitindo um sentido de igualdade e aceitação do potencial de cada um, respeitando a espontaneidade e a expressão do seu self, seja qual for a sua cultura.
Mas, já agora, um Feliz Natal!
Daniela Martins é arte-terapeuta e psicoterapeuta. Trabalha com pessoas de todas idades, desde crianças aos idosos, proporcionando momentos criativos e estimulando o
encontro com o melhor delas próprias. Investe na arte e na criatividade como formas de afeto e saúde mental.

