{"id":1417,"date":"2025-05-30T10:23:20","date_gmt":"2025-05-30T09:23:20","guid":{"rendered":"https:\/\/inclusao.pt\/?p=1417"},"modified":"2025-06-02T11:06:52","modified_gmt":"2025-06-02T10:06:52","slug":"silencio-exclusao-e-doenca-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusao.pt\/?p=1417","title":{"rendered":"Sil\u00eancio, exclus\u00e3o e doen\u00e7a mental"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Quando se est\u00e1 vulner\u00e1vel, espera-se empatia. E o que se recebe? Uma caixa com os pertences.<\/h4>\n\n\n\n<p>Na inclus\u00e3o.pt n\u00e3o temos medo de dizer as coisas como elas s\u00e3o. E \u00e0s vezes, a realidade \u00e9 dura. \u00c9 fria. \u00c9 injusta. Recebemos o testemunho da Mariana Costa sobre o que aconteceu ao pai, que dedicou a vida inteira a uma associa\u00e7\u00e3o desportiva e que foi posto de lado no momento em que mais precisava de apoio. Porque a sa\u00fade mental continua a ser um dos maiores tabus no nosso pa\u00eds. E porque ainda se acha que um diagn\u00f3stico cl\u00ednico \u00e9 motivo para apagar uma hist\u00f3ria de dedica\u00e7\u00e3o, de trabalho e de paix\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui fica o testemunho, sem filtros, tal como o recebemos. Porque n\u00e3o h\u00e1 nada que precise de ser embelezado quando a verdade j\u00e1 fala t\u00e3o alto:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Durante mais de 30 anos, o meu pai dedicou-se de corpo e alma \u00e0 associa\u00e7\u00e3o desportiva que ele pr\u00f3prio fundou. Foi ele que lan\u00e7ou as bases, que formou atletas, que montou estruturas, que sonhou e concretizou. Trabalhou sem hor\u00e1rios, sem esperar reconhecimento, muitas vezes \u00e0 custa da pr\u00f3pria sa\u00fade, fam\u00edlia e bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi treinador, dirigente, mentor.<\/p>\n\n\n\n<p>Construiu muito do que hoje ainda l\u00e1 est\u00e1 \u2014 f\u00edsica e humanamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, para muitos, mais do que um profissional: foi um exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, atravessou um per\u00edodo dif\u00edcil, relacionado com uma doen\u00e7a bipolar \u2014 uma condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica diagnosticada, acompanhada e em tratamento. Este epis\u00f3dio obrigou-o a ser for\u00e7ado a parar para cuidar de si.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou de um internamento, esperava \u2014 no m\u00ednimo \u2014 respeito e empatia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que encontrou foi frieza, sil\u00eancio e exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Proibiram-no de regressar ao seu local de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Negaram-lhe acesso aos seus pr\u00f3prios documentos, computador, email, como se de um criminoso se tratasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Entregaram-lhe os pertences pessoais numa caixa. (Nesta parte eu paro para me rir pelo rid\u00edculo da situa\u00e7\u00e3o)<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca lhe explicaram porqu\u00ea. Nunca houve um processo claro e informado.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante todo o tempo em que a sua doen\u00e7a esteve presente, nunca foram tomadas quaisquer medidas ou demonstrada preocupa\u00e7\u00e3o. Nada foi feito para apoiar ou adaptar o seu lugar. E, de repente, quando ele precisava de ajuda, a situa\u00e7\u00e3o tornou-se irrevers\u00edvel para eles. Como se o seu valor e dedica\u00e7\u00e3o desaparecessem num instante.<\/p>\n\n\n\n<p>E esta semana, numa reuni\u00e3o pedida por ele (por at\u00e9 \u00e0 data n\u00e3o terem sido apresentados motivos para o afastamento), foi humilhado com acusa\u00e7\u00f5es infundadas, sem qualquer base legal, sem direito a defesa, sem respeito pela sua hist\u00f3ria ou pela sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 impressionante \u2014 e revoltante \u2014 como se passa de bestial a besta muito r\u00e1pido. Num momento \u00e9s uma refer\u00eancia e o pilar da institui\u00e7\u00e3o, e no instante seguinte \u00e9s descartado, silenciado, transformado num problema a esconder.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o meu pai cometeu erros durante esta fase man\u00edaca da sua doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o os erros que est\u00e3o a ser agora instrumentalizados, deturpados e usados como desculpa para o afastar. Est\u00e3o a aproveitar-se da sua fragilidade tempor\u00e1ria para o silenciar, apagar e desvalorizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 profundamente injusto. \u00c9 imoral. E \u00e9 vergonhoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vi o meu pai sair daquela reuni\u00e3o destro\u00e7ado, como nunca o tinha visto.<\/p>\n\n\n\n<p>E senti, pela primeira vez, vergonha do s\u00edtio onde cresci, que me ajudou a ser a pessoa que sou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m sei que foi l\u00e1 que aprendi a lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>E que nunca se baixa os bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um retrato de como a sa\u00fade mental ainda \u00e9 estigmatizada, e como se usa o sil\u00eancio dos vulner\u00e1veis como arma.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00fade mental \u00e9 real. A exclus\u00e3o \u00e9 real. A injusti\u00e7a \u00e9 real.<\/p>\n\n\n\n<p>E o sil\u00eancio, esse, nunca ser\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o!!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mariana.jeronimo.148\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.facebook.com\/mariana.jeronimo.148\">Mariana Costa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Obrigado, Mariana.<\/strong><br>Obrigado por dares voz \u00e0quilo que tantos vivem em sil\u00eancio. Este testemunho \u00e9 mais do que uma hist\u00f3ria pessoal, \u00e9 um espelho da realidade de muitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para todos os pais de Marianas, para todos os que deram tudo de si e foram postos de parte quando mais precisavam: <strong>for\u00e7a. N\u00e3o desistam de lutar. A vossa hist\u00f3ria importa. E aqui, nunca ser\u00e1 ignorada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se est\u00e1 vulner\u00e1vel, espera-se empatia. E o que se recebe? Uma caixa com os pertences. 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